Valor e dignidade do trabalho

      Fiel ao seu divino fundador, a Igreja sempre promoveu e respeitou a dignidade do trabalho. Fê-lo, reivindicando o papel fundamental que o trabalho humano desempenha nos desígnios de Deus. Fê-lo, exaltando os objetivos que a inteligência humana soube alcançar, em particular no domínio da ciência e da técnica. Fê-lo, pensando na sua predileção por todos os trabalhadores, em especial por aqueles que mais suportam a fadiga, tais como os operários e os camponeses. Fê-lo, acolhendo e apoiando as suas necessidades, os seus interesses e as suas aspirações legítimas. Fê-lo, aproximando-se do mundo do trabalho, tanto nos bairros de lata, como nas barracas ou nos alojamentos desconfortáveis, para assistir material e espiritualmente ao homem, preservá-lo dos múltiplos perigos e melhorar as suas condições de vida.

      O trabalho é também a dimensão fundamental da existência do homem sobre a terra. Para o homem, o trabalho não tem apenas um significado técnico; tem também um significado ético. Pode-se dizer que o homem “sujeita” a terra, quando ele próprio, pelo seu comportamento, se torna senhor e não escravo dela, e também senhor e não escravo do trabalho.

      O trabalho deve ajudar o homem a tornar-se melhor, espiritualmente mais maduro, mais responsável, a fim de poder realizar a sua vocação sobre a terra, tanto como pessoa absolutamente única, como na comunidade humana fundamental que é a família. Unindo-se, o homem e a mulher, precisamente naquela comunidade, cujo caráter foi estabelecido desde o início pelo Criador, dão vida a novos homens. O trabalho deve fornecer a essa comunidade humana a possibilidade de encontrar os meios necessários para se formar e para subsistir.

      O trabalho nunca deve ser feito em detrimento do homem. Apercebemo-nos, atualmente, sob tantos aspectos, de que o progresso técnico não se fez acompanhar de um respeito adequado pelo homem. A técnica, tão admirável nas suas conquistas contínuas, empobreceu frequentemente o homem na sua humanidade, privando-o das suas dimensões interiores, espirituais, abafando nele o sentido dos valores verdadeiros, superiores. É preciso restituir o primado ao espiritual. A Igreja convida a manter a justa hierarquia dos valores. Que o célebre binômio beneditino “ora et labora” (reza e trabalha) seja para nós, homens e mulheres, uma fonte contínua de verdadeira sabedoria, de equilíbrio seguro, de perfeição humana; que a oração dê asas ao nosso trabalho, purifique as suas intenções, o defenda contra os perigos do embrutecimento e da negligência. Que o trabalho nos faça redescobrir, depois da fadiga, que a pessoa humana é maior que seu rendimento, que o capital deve estar a serviço do trabalhador.

      Segundo o Concílio (Lúmen Gentium 41), o trabalho constitui um caminho para a santidade, porque oferece a ocasião:

  1. De a pessoa se aperfeiçoar. Efetivamente, desenvolve a personalidade do homem, exercitando as suas capacidades e as suas qualidades. Compreendemo-lo melhor na nossa época, com o drama de tantos desempregados que se sentem diminuídos na sua dignidade de pessoas humanas. É preciso dar o máximo de alívio possível a essa dimensão personalista em favor de todos os trabalhadores, procurando assegurar-lhes, em todos os casos, condições de trabalho dignas do homem.
  2. De ajudar os seus concidadãos. É a dimensão social do trabalho não é uma atividade egoísta, mas altruísta. A pessoa não trabalha exclusivamente para si, mas para todos os outros.
  3. De fazer progredir toda a sociedade e a criação. O trabalho toma, pois, uma dimensão histórico-escatológica, poder-se-ia dizer cósmica, na medida em que a sua finalidade é a de contribuir para melhorar as condições materiais da vida e do mundo, ajudando a humanidade a atingir os fins superiores para que Deus a chama. O progresso atual do trabalho permite uma melhoria a uma escala universal. Mas há muita coisa a fazer para adaptar o trabalho aos fins pretendidos pelo próprio Criador.

    Dom Orlando Brandes

    Arcebispo de Londrina

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    Artigo publicado na Folha de Londrina, 26 de abril de 2008



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